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A prancheta tática do Maracanazo

As inúmeras teses sobre a vitória uruguaia frente ao Brasil possuem muitos contextos: individuais, psicológicos, e até mesmo sobrenaturais. Porém, um aspecto acaba quase sempre relegado ao segundo plano: a tática. Mesmo há mais de 50 anos, os esquemas táticos já tinham grande importância. No final dos anos 40, o desenho vigente ainda era o famoso WM (3-2-2-3), esquema que nasceu nos anos 20, na Inglaterra, em contraposição ao clássico 2-3-5. Em campo, no Maracanã, naquele 16 de julho de 1950, duas escolas de futebol bem diferentes se colocavam frente a frente: o Brasil das individualidades, comandado por Flávio Costa, um dos maiores estrategistas do seu tempo no país, e o Uruguai, da raça charrúa, comandado pelo educador físico Juan López Fontana. 

Voltando um pouco no tempo para contextualizar o momento, o Brasil de 50 deveria ser a obra-prima de Flávio Costa. O treinador realizou nos anos 40 feitos memoráveis: comandou o primeiro tri carioca do Flamengo, o título vascaíno no Sul-Americano de 48 (a primeira competição continental de clubes da América do Sul) e o Sul-Americano de 49, pela Seleção, quebrando um jejum de 27 anos. Neste período, Flávio Costa criou uma modificação do WM, a qual chamou de “diagonal”, inspirado em seu antecessor no Flamengo, o húngaro Dori Kürschner. Basicamente, o quadrado formado pelos dois centro médios e pelos dois meias avançados, se posicionava diagonalmente, dando mais ofensividade a um dos lados do campo e compensando defensivamente o outro lado. O centro médio mais recuado se aproximava da linha de três defensores, o segundo centro médio (podemos chamar aqui de segundo volante), adiantava e se alinhava com o meia do lado oposto, enquanto o meia ao lado do segundo volante também avançava, formando uma linha de quatro atacantes. Era uma prévia do 424, que dominaria o futebol na década seguinte.

Porém, já no Mundial, após o empate contra a Suíça, em São Paulo, Costa decidiu alterar o esquema para o WM rígido, e foi assim até o final. Já os orientais utilizaram uma estratégia com os tradicionais três homens de defesa, mas com a adição de um quarto homem por trás dos defensores, González. Embora teóricos indiquem que a inspiração tenha sido a Suíça, esta forma de jogo já seria usada no Uruguai anteriormente. Vale lembrar que, tratado como azarão, o Uruguai estava longe de ser presa fácil. O decepcionante desempenho do Uruguai no Sul-Americano de 49, em que terminou na sexta posição entre oito times, foi consequência direta da longa greve dos jogadores profissionais do país, entre 48 e 49. Mas já em 50, contra o próprio Brasil, os charrúas mostraram seu real nível, em dois amistosos realizados em maio. No primeiro, vitória uruguaia por 4 a 3, e no segundo, triunfo brasileiro por um não menos apertado 3 a 2.

Outra questão a ser observada na final, foi a importância dos volantes. Se hoje essa posição é tratada como fundamental para que o jogo progrida ao ataque, em 1950 ela era relegada basicamente a funções defensivas. Mas o Uruguai contava com dois dos melhores centro-médios daquela geração de futebolistas. O capitão Varela, mais centralizado, e Pérez, mais à direita, tiveram papel fundamental, pois eram eles os homens que faziam o acionamento do ponta-direita, Ghiggia. O camisa 7 uruguaio foi completamente decisivo, participando ativamente dos dois gols de sua equipe. No primeiro, Varela avançou e serviu Ghiggia, que fez o legítimo papel de ponteiro, bagunçando para cima de Bigode, indo à linha de fundo e centrando a bola para Schiaffino empatar o jogo. No gol da vitória, Ghiggia recebe de Pèrez e avança, passando Bigode na velocidade e, ao chegar a cobertura de Juvenal, surpreende todos que esperavam mais uma bola centrada. O chute cruzado, meio mascado, passa entre a trave e Barbosa. Em contrapartida, o Brasil jogava mais exposto, com dois volantes técnicos e menos combativos, Danilo Alvim e Carlos Bauer. 

A bem da verdade, pode-se dizer que o duelo tático entre as duas seleções terminou tecnicamente empatado, ainda que a visão da partida seja uma interpretação dos relatos de imprensa, cronistas e historiadores, em razão da falta de imagens. O Brasil teve méritos na final, acertou bola na trave e exigiu do arqueiro Máspoli uma grande atuação. O Uruguai soube perceber as deficiências brasileiras e atacar este ponto fraco. Como na maioria dos grandes jogos, a decisão ficou mesmo em detalhes, nos erros individuais da defesa brasileira e na inteligência do ponta-direita uruguaio. Flávio Costa sabia da força uruguaia, mas não conseguiu conter o que chamou de ‘imponderável’.

“Sinceramente, nem eu esperava pelo pior. Sabia, sim, que o team uruguaio era bravo. Tanto que não me cansei de avisar durante a semana que teríamos nos uruguaios o mais terrível dos adversários. Sei que os jogadores compreenderam o alcance da advertência, mas veio o inelutável. Houve o imponderável, e foi o imponderável que liquidou todas nossas pretensões”.