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Opinião

A desnecessária ode ao trágico

Na vida de um apaixonado por futebol, não há trauma maior do que uma derrota para um rival. Em casa, então? E em uma final de Copa do Mundo? O Maracanaço foi uma dor sentida por milhões, mesmo em uma época em que só o rádio era capaz de unificar o povo brasileiro em um só. A dor foi tamanha, que até a fé foi colocada à prova. “Deixei de acreditar em Deus no dia em que vi o Brasil perder a Copa do Mundo no Maracanã”, disse certa vez o escritor Carlos Heitor Cony.

A derrota de 2 a 1 para o Uruguai na final da Copa de 1950 foi tratada à época como qualquer derrota brasileira em Copas do Mundo. De forma negativa, exagerada e em alguns pontos até mesmo injusta. Apesar disso, o Maracanaço foi levado a uma narrativa trágica com o tempo, talvez alicerçada na escassez de imagens do Mundial de 50. E essa construção imagética da derrota impossível foi aumentando o mito de “maior derrota da história”. O tapa na cara de Varela em Bigode é um exemplo das lendas que foram se tornando verdade e nem mesmo a palavra dos protagonistas desfez o imaginário popular. A cada encontro entre Brasil e Uruguai, a última rodada do quadrangular final de 50 era revivido, sempre como o exemplo máximo do que não fazer diante da Celeste Olímpica – ou de qualquer decisão. O confronto na Copa de 1970, por exemplo, foi tratado como revanche, e a vitória brasileira um exorcismo de tal fantasma. 

 A “prisão perpétua” de Barbosa, o goleiro brasileiro naquela final, foi outro fato potencializado pela crônica esportiva. Óbvio que o arqueiro foi vítima das críticas da imprensa, de torcedores e também de sua autocrítica, natural de um esportista, como sempre ficou claro em suas próprias palavras. Mas a imagem de Barbosa sempre foi respeitada pela mídia especializada, mesmo que ligada ao maldito Maracanaço. Suas conquistas eram destacadas, mas aos poucos, o tempo foi apagando o brilho das vitórias e só restava o gol de Ghiggia. 

Mas a chave para a transformação da imagem de Barbosa por parte da imprensa, de um goleiro vencedor e glorioso em injustiçado e amargurado, pode ter se consolidado em um episódio às vésperas do Mundial de 94 e que é mais uma das lendas perpetuadas à exaustão. Em 1993, o Brasil decidiria uma vaga à Copa do Mundo diante do Uruguai, justamente no Maracanã. Romário estava de volta e era a esperança brasileira de vitória. O resultado dessa partida todos lembram. O Baixinho fez chover e deu o primeiro passo na trajetória do tetracampeonato mundial. Entretanto, antes da bola rolar, uma reportagem do jornal O Globo ficou gravada na memória de muitos. A matéria era uma prévia do duelo decisivo e, em determinado trecho, contava sobre um suposto barramento à Barbosa, que gostaria de dar apoio aos atletas, definido pela comissão técnica capitaneada por Carlos Alberto Parreira e Zagallo. A motivação seria a superstição do Velho Lobo. A antipatia já existente à figura dos dois treinadores cresceu ainda mais com o fato, que de acordo com Tereza Borba, filha adotiva de Barbosa, não passou de boato. Segundo relato dela, Barbosa passou a semana em Teresópolis para uma reportagem da BBC de Londres, e conviveu aqueles dias com a comissão técnica brasileira e com os jogadores. Até que um jornalista pediu para tirar uma foto do goleiro de 50 com Taffarel. Zagallo interveio e aconselhou Barbosa a não fazê-lo, pois além de criar uma pressão ainda mais desnecessária em Taffarel, ainda colocaria Barbosa mais uma vez sob o julgamento popular, em caso de uma nova derrota. 

O Maracanaço, por ser em um Mundial de Futebol, torneio e esporte que a cada ano ganhava mais força, marcou demais a vida dos jogadores que estiveram naquela partida. Perder o título mais importante da história do futebol não é algo facilmente digerido por quem foi derrotado. Mas a construção trágica de uma imprensa sedenta pelo sensacionalismo, transformou uma derrota meramente esportiva em um fardo emocional para cada um, que passou por cima de todo o legado construído por aqueles atletas. Traçando um paralelo com a atualidade, os protagonistas do “7 a 1”, essa sim, a maior derrota da história da Seleção Brasileira, pouco sofreram as consequências da goleada aplicada pela Alemanha na Copa de 2014, embora sejam cobrados por muitos torcedores, ainda mais em uma época em que todos têm voz. Entretanto, o tratamento dado a Barbosa e a todos os outros deve servir de lição à imprensa, especialmente quando a carreira destes jogadores chegar ao fim. Não é necessário aliviar ou fazer vista grossa com os erros, mas é preciso equilibrar as críticas ao profissional com o devido respeito ao ser humano, como talvez tenha faltado algumas vezes em relação a Moacir Barbosa, o goleiro do Maracanaço, mas também o goleiro que quebrou barreiras e conquistou o Brasil e a América com suas mãos.