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A Máfia da Loteria Esportiva

Era uma simples conversa entre dois jornalistas. Em 1979, Milton Coelho da Graça, diretor da revista Placar, percebeu algumas coincidências nos resultados da Loteca, e comentou sobre com Juca Kfouri, que era editor de projetos especiais da revista e supervisionava a seção dedicada à Loteria Esportiva. A pedido de Milton, Juca foi até Brasília solicitar para ver os bilhetes premiados. Pedido negado sob a justificativa de sigilo bancário. Aquilo ficou na cabeça de Juca. No mesmo ano, Milton deixou a editora Abril e Juca foi promovido para o cargo vago. “Quem é o macho para descobrir a sacanagem da Loteria Esportiva?”, provocava Juca, aos demais companheiros de redação.

Em nova viagem à capital federal, em 81, pediu novamente para ver os bilhetes, e foi atendido. “Nego colocava jogo triplo em partida que se cravaria seco. Corinthians x Juventus, triplo. Flamengo x Olaria, triplo. Vasco x Botafogo, Vasco. Atlético-PR x Coritiba, Coritiba. Inter x Livramento, triplo. Não é possível. Eles cravam triplo em jogo fácil e seco para jogo difícil. Tem alguma coisa estranha nisso”. No dia seguinte, delegou ao repórter Sérgio Martins a missão de apurar o caso, no prazo de um ano, devidamente cumprido. No dia 22 de outubro de 1982, a Máfia da Loteria Esportiva era desvendada.

O radialista Flávio Moreira, arrependido do envolvimento com a máfia, foi uma das principais fontes da reportagem. Moreira trabalhava na agência de notícias Sport Press, e passou a ser um dos principais informantes do grupo na fabricação de resultados. De acordo com a reportagem, um dos cabeças da organização seria João Nunes da Costa Filho, gerente de uma agência bancária do Banco Econômico. João chegou a Flávio através de Alberto Damasceno, radialista cearense. O grupo era formado também por um contador chamado Garcia, e por Triunfo, dono de uma lotérica. Ainda segundo a reportagem, outros grupos foram se formando em estados como o Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Bahia e Pará. A reportagem apontou a participação de 125 pessoas, entre elas alguns jogadores e técnicos de renome, como Mazarópi (goleiro), Tadeu Macrini (atacante), Marco Antônio (meia), Orlando (lateral), Joel Mendes (goleiro) e Jairo (goleiro).

Na edição seguinte, de 29 de outubro, Placar ouviu 80 dos acusados, que em sua maioria, negaram qualquer envolvimento. Apesar de todas as descobertas e indícios encontrados pela reportagem da Placar, que podem ser conferidas nas edições seguintes, o fato é que não existiam provas suficientes que garantissem que Flávio Moreira estivesse fazendo um relato real em relação aos acusados. E enquanto a imprensa fazia seu papel de apuração, a Polícia Federal só foi começar a ouvir os primeiros acusados um mês depois. Além dos 125 nomes da publicação original, dezenas de outras pessoas foram sendo citadas. Alguns confessavam participação, e outros vinham a público revelar a tentativa de suborno. Dos 624 testes da Loteria Esportiva, pelo menos 66 estavam sob suspeita. Como era de se esperar, a reportagem quebrou um esquema gigantesco, e logo repórteres da Placar passaram a receber intimidações e ameaças. Quanto mais Placar mexia, mais sujeira encontrava. Na edição de fevereiro de 83, a reportagem apontava até mesmo a participação de um parlamentar, o deputado federal Milton Reis, eleito em Minas pelo PMDB. O problema, segundo coluna de Sergio Martins, um ano após a edição reveladora, é de que o mundo do futebol prefere fingir que nada está acontecendo.

E foi assim, como se nada tivesse acontecido, que o caso terminou. Depois de três anos e dois meses de investigação, a Polícia Federal encerrou o inquérito com apenas 20 pessoas indiciadas. A conclusão do inquérito, feito pelo carioca Paulo Lacerda (sexto delegado a assumir o caso), foi a de que “não existia uma organização de manipulação, mas apenas alguns grupos isolados”. O processo compilou 4.747 páginas. Os acusados foram indiciados por estelionato e formação de quadrilha. A lentidão do processo fez com que os crimes cometidos acabassem prescritos, e nenhum deles foi punido efetivamente. Abaixo, você confere o nome dos 20 indiciados no escândalo da Máfia da Loteria Esportiva:

  • Ary Gil Cahet, comerciante. Hoje atua como empresário do ramo gastronômico.
  • Manoel Rodrigues Mansur, comerciante. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Roque Antônio Pereira Pires, comerciante. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Leon Barg, comerciante, radicado em Curitiba. Faleceu em 2009. Era considerado um dos maiores colecionadores de discos de vinil do país.
  • Azziz Abdalla Domingos, industrial e comerciante. Já falecido.
  • João Nunes da Rocha Filho, bancário. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Flávio do Nascimento Moreira, jornalista cearense. Faleceu em 2021, vítima do coronavírus.
  • José Alberto Damasceno, jornalista cearense falecido em 2021.
  • Claudio Leite Pereira, ex-supervisor de futebol. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Tião Abatiá, ex-jogador, ídolo do futebol paranaense. Faleceu em 2016, quando atuava como lotérico no interior do Paraná.
  • Mário Paraná, ex-jogador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Élcio Sapatão, ex-jogador. Falecido em 2020 vítima do coronavírus.
  • Paulo Maurício, ex-jogador. Também foi técnico de futebol. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Hudson, ex-jogador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Biluca, ex-jogador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Mug, ex-jogador. Faleceu em 2017.
  • Sérgio Luis Pereira, ex-jogador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Divininho, ex-jogador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • “Machado” Ramos da Luz, ex-treinador. Paradeiro não encontrado pela reportagem.
  • Orlando de Oliveira Antunes, jornalista atuante até hoje, no Mato Grosso.

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