Trabalho. Família. Pátria. Este foi o símbolo de um período nefasto na história da França. Durante a Segunda Guerra Mundial, o país foi dominado pela Alemanha e pela ideologia nazista, e só chegou a este nível graças a muitos franceses que não apenas simpatizavam, mas também colaboravam ativamente com o avanço do nazismo pela Europa.

Em 1940, surgiu a França de Vichy, um Estado fantoche da Alemanha Nazista, liderado pelo Marechal Pétain, cujo lema eram as primeiras três palavras deste texto. Entre os crimes do já octogenário chefe de Estado, esteve a deportação de mais de 13 mil judeus, dentre eles 4 mil crianças, enviados a campos de concentração.

Dez anos antes, em 1930, a França começava a sentir o baque da Grande Depressão, um dos estopins para o conflito que viria a ocorrer no final daquela década. Mas no âmbito esportivo, o país era um importante centro. Aliás, um francês foi o responsável direto por uma das iniciativas de maior impacto do esporte: a criação da Copa do Mundo de Futebol. E embora a política já apontasse para um inevitável conflito armado, muitos talvez nem imaginassem o quanto suas vidas mudariam em apenas dez anos.

É possível que este fosse o caso de Alexandre Villaplane. O então atleta de 24 anos atravessou o Oceano Atlántico para ser o capitão da seleção francesa na primeira partida da história das Copas do Mundo. Talentoso, teria boas oportunidades de brilhar no futebol francês, que estava começando a se profissionalizar. Mas o futebol parecia pouco para Villaplane. O esporte acabaria em segundo plano na vida do jogador.

O capitão mundialista

Alexandre Villaplane é um dos muitos jogadores de futebol nascidos nas antigas colônias francesas, mas foi o primeiro a representar o país oficialmente. O ex-meio campista nasceu em Argel em 1905. As fontes divergem sobre a data exata, mas o site da Federação Francesa de Futebol aponta para o dia 25 de dezembro. Já adolescente, se mudou para a França, e no início da década de 20, passou a fazer parte da equipe principal do FC Séte, onde atuou entre 1921 e 1925. Neste último ano, inclusive, enfrentou o time brasileiro do Paulistano. Vitória de 1 a 0 para o time francês.

Após um período de inatividade esportiva, Villaplane voltou aos gramados em 1927 para representar o Nimes. Na equipe do sul da França, o jogador passou a ter grande destaque no meio esportivo. Em 1929, passou a jogar pelo já tradicional Racing Paris. Foi representando o clube do subúrbio parisiense que Villaplane foi convocado para a disputa do Mundial de 1930, no Uruguai. Em toda sua carreira como esportista, atuou pela França em 25 partidas internacionais, entre 1926 e 1930.

Na Copa do Mundo de 30, Villaplane foi o capitão da equipe, e participou dos três jogos da primeira fase: a vitória por 4 a 1 na abertura do Mundial, contra o México; e as derrotas por 1 a 0 diante da Argentina e do Chile. Até aquele momento, era o jogador com mais partidas pelos Bleus

O escândalo da primeira edição do Campeonato Francês

Em 1932, o Racing foi um dos clubes fundadores da liga francesa (ainda sem o nome de Ligue 1), mas Villaplane resolveu mudar de ares, e participou da primeira edição do campeonato francês pelo Antibes. A equipe era forte e liderou o Grupo B, o que lhes garantiria disputar a final contra o Olympique Lillois (um predecessor do atual Lille). Na semana da decisão, descobriu-se que membros do Antibes teriam tentado subornar uma equipe adversária para vencer, e o time acabou desqualificado do campeonato. O Cannes foi à final e perdeu para o Lillois.

Posterior a este caso, o meia ainda jogaria mais uma temporada pelo Nice (33/34) e outra pelo Hispano-Bastidien (34/35), um obscuro clube de Bordeaux que existiu por apenas um ano na segunda divisão francesa. Viciado em apostas, Villaplane se envolveu em um escândalo de corridas de cavalos, e acabou preso em 35.

De esportista a criminoso de guerra

Com o início da Guerra e sem perspectivas, Villaplane partiu de vez para o crime, passando a cometer roubos e a praticar extorsão. Em 1940, chegou a ser preso em posse de bens roubados. O histórico problemático não afetava, no entanto, uma natural liderança e influência sobre as pessoas a sua volta. Foi assim que acabou sendo chamado para fazer parte de ações de uma milícia contra a Resistência Francesa, se tornando uma espécie de mercenário de guerra.

Durante três anos, Villaplane aplicou golpes e extorsões sem muito critério, sendo novamente preso em 1943. Seus contatos da época de milícia o ajudaram a sair da prisão, mas a um preço: se manter um colaboracionista. De capitão da seleção francesa de futebol, Alexandre se tornou “capitão” de um dos grupos da Brigada do Norte da África, que colaborou com os nazistas, promovendo uma verdadeira caça a insurgentes. Villaplane foi um responsável direto por dezenas de execuções, até ser pego pelos Aliados, depois da libertação da França, em agosto de 1944.

No dia 1º de dezembro daquele ano, foi condenado a morte pela participação na Gestapo francesa e em pelo menos dez assassinatos. Em seu julgamento disse que “causou muitos danos, mas que também carrega o peso de crimes que não cometeu, e que lamenta muito que as testemunhas da defesa não tenham comparecido”, segundo tradução de reportagem da época do jornal francês Combat.

Cena do julgamento do ex-capitão da seleção francesa de futebol. Villaplane é o segundo da primeira fileira, da direita para a esquerda.

De acordo com uma reportagem do jornal inglês The Guardian, o promotor do julgamento de Villaplane foi claro sobre a participação do ex-jogador nos crimes imputados a ele. “Eles pilharam, estupraram, roubaram, mataram e se uniram aos alemães para ultrajes ainda piores, as execuções mais terríveis. Eles deixaram fogo e ruína em seu rastro. Uma testemunha nos contou como viu com seus próprios olhos esses mercenários tirar joias dos corpos ainda retorcidos e manchados de sangue de suas vítimas. Villaplane estava no meio de tudo isso, calmo e sorridente. Alegre, quase revigorado”.

No dia 26 de dezembro de 1944, Alexandre Villaplane foi fuzilado. A exemplo de muitos outros jogadores e treinadores de seu tempo, acabou morrendo em meio a uma guerra que não começaram. Mas bem diferente da maioria de seus companheiros vitimados no conflito, Villaplane será sempre lembrado por sua opção pelo mal absoluto.