A união de países com objetivos econômicos e políticos comuns não era uma novidade, mas a década de 90 teve um “boom” na criação de blocos econômicos. Siglas como Alca, Nafta, Apec, entre outros, se tornaram populares nas discussões políticas e no ensino da geografia nas escolas. Se você foi aluno do fundamental nesta época, deve entender o que estou dizendo. Um dos blocos de maior sucesso daquele período foi o Mercosul.

O Mercosul (sigla para Mercado Comum do Sul) foi formado em 1991, fundado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, após a assinatura do Tratado de Assunção. Atualmente, o bloco também conta com a participação da Venezuela (que encontra-se suspensa), da Bolívia (que é um estado associado e está em processo de adesão) e de outros seis países associados: Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname. O Mercosul foi fundado de maneira similar à Conmebol, que iniciou com quatro países fundadores, trocando apenas Paraguai pelo Chile (os paraguaios se filiaram apenas em 1921).

Não demorou muito para que o nome Mercosul também ganhasse terreno no esporte. Muitos lembram com nostalgia da Copa Mercosul, torneio organizado pela Conmebol no final da década com grandes clubes dos países-membro e do Chile convidados para a disputa. Mas antes disso, o nome do bloco foi utilizado em duas edições de um torneio amistoso, dos muitos que foram realizados nos anos 90. Um foi conquistado pelo Figueirense e outro pelo Internacional. Com pesos diferentes, desde sua concepção, a forma como ambas as torcidas e clubes lidam com a conquista ajudam a contar a história da esquecida competição.

Torneio Mercosul 1995: um dos mais importantes títulos do Figueirense

O time alvinegro de Florianópolis é o maior campeão de Santa Catarina, com 18 títulos, mesma quantidade do arquirrival Avaí. E a conquista do Torneio Mercosul, um título internacional, ainda que amistoso, reforça essa grandeza regional. A ideia de relevância desse torneio é corroborada pelo próprio clube (“um dos principais títulos da história alvinegra”), pela Federação Catarinense (“Uma conquista internacional, importante na história do clube”) e até mesmo pela CBF, que aparentemente confundiu o Torneio Mercosul com a Copa Mercosul.

O torneio foi organizado pela Federação Catarinense de Futebol e disputado entre o final de janeiro e os primeiros dias de fevereiro. Era bastante comum que federações organizassem competições similares (aqui mesmo no Maracanazo você pode ler sobre a Copa Centenário de Belo Horizonte). Nove equipes participaram: cinco equipes catarinenses (Avaí, Criciúma, Figueirense, Joinville e Marcílio Dias), o paranaense Coritiba e os internacionais Cerro-URU, Nacional-URU e Olímpia-PAR. Outros clubes chegaram a ser convidados, mas acabaram negando o convite ou desistindo antes do início do torneio: a dupla Gre-Nal, o Juventude, Peñarol-URU, Barcelona-EQU e os argentinos de La Plata, Racing e Estudiantes.

Os confrontos eram todos eliminatórios, com quartas, semi e final. Como havia número ímpar de equipes, houve uma fase preliminar, disputada entre Criciúma e Cerro, no dia 31 de janeiro. No estádio Heriberto Hülse, Sílvio Criciúma e Luis Carlos Oliveira marcaram os gols da vitória por 2-0 do Carvoeiro.

E já na primeira fase, todos os estrangeiros já foram eliminados. O Figueirense tirou o Olímpia da disputa, vencendo por 3 a 2. No tempo normal, empate em 2 a 2 (os gols do Figueira foram marcados por Ricardo e Zé Cley, enquanto os do Olímpia por Samaniego e Baéz), e na prorrogação, Oliveira confirmou a vitória alvinegra. Já o Nacional sucmbiu diante do Avaí por 4 a 2 na Ressacada. Morales e Duarte marcaram para os uruguaios, enquanto o Avaí venceu com gols de Claudiomir e Jacaré, que balançaram as redes duas vezes cada um. Nos confrontos caseiros da primeira fase, o Marcílio Dias venceu o Criciúma por 1 a 0, gol de Everaldo, no estádio Hercílio Luz; e o Joinville sapecou o Coritiba por 3 a 0, com dois gols de Dauri e um de Índio, no Ernestão.

Nas semifinais, Joinville e Figueirense foram econômicos. Ambos venceram pelo placar mínimo. Em Joinville, Gilmar marcou o gol da vitória tricolor sobre o Avaí, enquanto no Orlando Scarpelli, Sandro marcou aos 31 minutos do segundo tempo, o único gol do Figueirense sobre o Marcílio Dias.

Embora fosse um torneio amistoso, a rivalidade fez com que mais de 5 mil pessoas se fizessem presentes no Orlando Scarpelli no dia 7 de fevereiro para acompanhar o duelo entre o Furacão do Estreito e o Coelho. No tempo normal, empate sem gols. No tempo extra, o meia Biro-Biro (com passagens por outras equipes catarinenses e pelo Grêmio), foi o responsável por marcar o gol do título, na cobrança de um pênalti aos 15 minutos do primeiro tempo da prorrogação.

Segundo o site Campeões do Futebol, o Figueirense jogou com Rogério, Felício, Gelásio, Solis, Denílson, Gilmar Serafim, Oliveira, Antunes, Biro Biro, Zé Cley (Alexandre Lopes) e Edson Bela (Sandro Costa). Técnico: Abel Ribeiro. Já o Joinville atuou com Sílvio; Jairo Santos, Fonseca, Everaldo e Benson; Veiga, Vander Luiz, Gilmar e Dauri; Pedralli e Jorge Luiz. Técnico: Paulinho de Almeida.

Torneio Mercosul 1996: indiferença colorada em competição esvaziada

Considerada a “década perdida” do Internacional, os anos 90 foram complicados para o Colorado, especialmente na questão financeira, que acabava interferindo também nos resultados em campo. Mas também houve bons momentos e, principalmente, nomes que marcaram a história, como André Doring, Gamarra, Fabiano, Christian, entre outros. E o prestígio do clube gaúcho sempre fez com que chovessem convites para competições amistosas. Em 95, porém, o Inter declinou do convite do Torneio Mercosul da FCF.

No ano seguinte, em 96, uma nova edição do certame foi organizada. Porém, aparentemente, uma competição não parece ter ligação com a outra. Enquanto a primeira era encampada por uma federação, a segunda foi realizada por um “grupo de empresários sul-americanos”. Apenas três clubes marcaram presença: o Internacional, o San Lorenzo-ARG e o Universidad Católica-CHI. Com isso, a fórmula de disputa foi um triangular, com jogos em ida e volta.

Em uma diferença de menos de três dias, o Internacional jogou na Argentina e no Chile. Em Buenos Aires, no dia 21 de julho de 96, vitória magra por 1 a 0 sobre o San Lorenzo. Neste jogo, o Inter de Nelsinho Baptista jogou com André; Edinho, Márcio Dias, Gamarra e Vinícius; Fernando, Marcelo Rosa (Celso Vieira) e Yan; Paulo Isidoro (Arílson, depois Ferreira), Fabinho e Leandro Machado. Em Santiago, no dia 23, vitória por 2 a 0, com gols de Leandro Machado e Paulo Isidoro. Aqui, o Colorado jogou com André; Edinho, Márcio Dias, Gamarra e Vinícius; Fernando, Marcelo Rosa (Celso Vieira) e Yan (Arílson); Paulo Isidoro, Fabinho e Leandro Machado (Paulinho Diniz).

O confronto entre argentinos e chilenos ainda nem havia acontecido, e o Inter já estava estreando no “returno”, no dia 27 de julho. No Beira-Rio, o clube gaúcho venceu o San Lorenzo por 3 a 0, com gols de Fabinho (2x) e Leandro Machado. O Internacional foi a campo com André; Edinho, Márcio Dias (Régis), Gamarra e Cleomir; Fernando, Marcelo Rosa (Ânderson) e Yan (Arílson); Paulo Isidoro, Fabinho (Paulinho Diniz) e Leandro Machado. Três dias depois, o San Lorenzo recebeu a Católica e perdeu por 2 a 0.

Com isso, bastava que o Inter vencesse o time chileno para se sagrar campeão. No dia 6 de agosto, no Beira-Rio, o Colorado goleou a Católica por 4 a 1. Tonhão, Paulo Isidoro e Leandro Machado (2x) marcaram os gols brasileiros. O Inter jogou com André; Edinho (César Prates), Tonhão, Gamarra e Cleomir; Fernando (Celso Vieira), Enciso (Paulo Isidoro) e Yan; Arílson, Fabinho e Leandro Machado.

O tal Torneio Mercosul era tão deficitário e com um regulamento tão desnecessário, que o último jogo entre Católica e San Lorenzo foi cancelado, já que a competição já estava definida. Apesar de pouco lembrado, este foi o único título do Inter em uma temporada de muitos fracassos: o clube sequer foi finalista do Gauchão, foi eliminado precocemente na Copa do Brasil e ficou fora do mata-mata no Campeonato Brasileiro.