Não é uma surpresa ver a Confederação Brasileira de Futebol e seus dirigentes envolvidos em escândalos ou polêmicas, como tem ocorrido nas últimas semanas. Aliás, é até comum. Faz parte da rotina da entidade. O mais preocupante, porém, é que o que acontece dentro da CBF não é um fator isolado, mas um reflexo límpido de uma sociedade. A CBF é o espelho do que se tornou o Brasil. Um país imoral e decadente.

Começamos pela empreitada bolsonarista junto à Rogério Caboclo para sediar a Copa América. Embora, pessoalmente, eu não acredite que a realização do evento no país possa impactar significativamente no número de casos de Covid-19, é simbólica a ânsia por sediar um evento de grande porte em plena pandemia, sem qualquer preparo anterior. É a mostra do desespero e do despreparo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que deliberadamente atuou a favor do vírus, e que ciente de que seu capital político desmancha por sua própria incompetência, tenta usar os mesmos artifícios que os seus ídolos de regime militar utilizavam para hipnotizar parte da população. O presidente da CBF, por sua vez, que sempre fingiu normalidade diante do cenário pandêmico, aceitou se alinhar a um governo apodrecido para alavancar ainda mais o seu poder.

Caboclo não contava, porém, que uma acusação de assédio sexual e moral viria à tona. A história, que poderia ser apenas um pequeno empecilho caso não tivesse sustentação, ainda mais para um homem poderoso como Caboclo, ganhou força graças a coragem da vítima, que gravou uma de suas conversas com o dirigente. A repórter Gabriela Moreira, da Globo, teve acesso ao áudio e o divulgou em reportagem veiculada no domingo, no Fantástico. O áudio fala por si. Mesmo que haja um entendimento jurídico de que não há um abuso sexual, há no mínimo um claríssimo comportamento inadequado de quem se espera transparência e postura.

Em razão da denúncia, o Comitê de Ética da CBF afastou temporariamente Rogério Caboclo. Os vários vice-presidentes da entidade, todos com um histórico questionável, como o excelente levantamento realizado pela página Sem Firulas revelou (ver abaixo), já se articulam para decidir quem será o novo homem-forte do futebol brasileiro – pelo menos até o próximo escândalo surgir ou Caboclo voltar. O presidente afastado também faz suas articulações para um possível retorno.

Voltando ao Governo Federal, é inadmissível a interferência (ou a tentativa de interferência) clara ocorrida com o maior símbolo cultural do Brasil. O que Jair Bolsonaro e seus asseclas tentaram fazer com a Seleção Brasileira de Futebol, incluindo a pressão para que o técnico Tite fosse demitido e que até mesmo uma nova convocação fosse realizada, é inaceitável e digna apenas das maiores ditaduras do mundo contemporâneo. Bolsonaro já atacou diversas instituições nacionais sem ser punido e ciente de que seus correligionários tomaram à força a camisa verde e amarela como um símbolo da extrema-direita, tenta atacar também o time que um dia já foi símbolo da unidade nacional. Ou, que pelo menos, parecia ser.

Por fim, após o jogo desta terça-feira, 9, diante do Paraguai, os jogadores da Seleção publicaram um manifesto depois das inúmeras especulações de que eles não aceitariam disputar a Copa América. O posicionamento estéril dos jogadores – e também de Tite na coletiva de imprensa, já era esperado, mas possui suas razões. A vinda da competição ao Brasil foi apenas o estopim de uma relação vestiário-direção da CBF que vinha desmoronando. Um posicionamento político sobre o que acontece no Brasil seria importante, sem dúvidas, mas a “pequena revolta” exposta nos bastidores serviu para, ao menos, frear o ímpeto bolsonarista de atacar nossa Seleção.

A sanha por destruição de Jair se mantém, e é necessário atenção para o que vem por aí. Dentro e fora de campo.