A cidade de Belo Horizonte, entre as atuais capitais brasileiras, é uma das mais novas em idade. Fundada em 12 de dezembro de 1897, BH só é mais velha que os municípios de Porto Velho, Goiânia, Brasília e Palmas. É um fato curioso, levando em conta a importância do Estado de Minas Gerais na história brasileira. Mas o nosso texto não vai tratar sobre a história de fundação da capital mineira, mas da comemoração de seu centenário, em 1997.

No século passado, era comum que partidas amistosas e torneios fossem usados em eventos comemorativos. E naquele ano, a Federação Mineira de Futebol decidiu promover a Copa Centenário de Belo Horizonte. A competição, realizada na primeira quinzena de agosto, reuniu oito equipes: o trio de ferro da Capital (América, Atlético e Cruzeiro), os dois maiores clubes do país em torcida (Corinthians e Flamengo), dois clubes europeus (Benfica e Milan) e um clube sul-americano (Olímpia).

O regulamento era simples, com dois grupos de quatro equipes cada, e os líderes avançavam para a disputa da final. O Grupo A foi formado por América, Atlético, Corinthians e Milan; e o Grupo B foi formado por Benfica, Cruzeiro, Flamengo e Olímpia.

A principal atração do torneio, é claro, era o Milan. Campeão da Champions League em 1996 e que tinha em seu elenco o liberiano George Weah, eleito melhor jogador do mundo pela FIFA em 1995.

A competição teve inicio no dia 1º de agosto, com um duelo brasileiro entre América e Corinthians no Estádio Independência. Donizete Pantera abriu o placar para o Timão aos 33 minutos, em uma falha bizarra do zagueiro Júnior. Ainda na primeira etapa, o jovem Rinaldo empatou ao completar chute cruzado de Pintado, após jogada bem trabalhada.

Segundo o site Meu Timão, a partida terminada em 1 a 1 contou com um público de 2.934 torcedores. O América de Givanildo de Oliveira jogou com Gilberto; Estevan (Evanílson), Júnior, Ricardo, Tércio, Pintado, Marco Antônio Boiadeiro, Tupãzinho, Irênio (Richard), Celso e Rinaldo. Já o Corinthians de Nelsinho Baptista foi a campo com Ronaldo Giovanelli; Rodrigo (Fernando Diniz), Henrique, Antônio Carlos, Gilmar (Romeu), Silvinho, Edinan, Fábio Augusto, Souza, Donizete (Marco Aurélio) e Mirandinha.

A despedida de Toninho Cerezo

No dia seguinte, foi a vez do Galo estrear na competição contra o Milan diante de 30.768 pessoas. O jogo era especial não apenas pelo adversário atleticano, mas por ser a despedida dos gramados do craque Toninho Cerezo. O histórico meio campista jogou apenas alguns minutos, sendo logo substituído por Almir. Cerezo foi ovacionado pela torcida atleticana.

O time italiano, porém, tentou estragar a festa. No primeiro tempo, George Weah apresentou suas credenciais e balançou as redes do Mineirão por duas vezes. Primeiro, o liberiano fez uma jogada antológica e venceu Taffarel em um chute sem muita força. Depois, após cobrança de falta do zagueiro brasileiro André Cruz, o atacante completou de cabeça.

A vitória do Milan estava praticamente certa, quando aos 37 do segundo tempo, Jorginho pegou sobra fora da área e bateu de três dedos, marcando um bonito gol. Já nos acréscimos, aos 46, Dedimar cobrou falta com o pé direito e Hernani cabeceou a bola para o gol, empatando a partida. Foi o primeiro gol como profissional do atacante revelado pelo Galo. “Imagina só, eu da base, vou jogar um jogo de uma grandeza dessas, a despedida de um ídolo do Atlético e no final eu vou e faço o gol de cabeça. Ali as portas se abriram e a partir dali comecei a jogar”, comentou Hernani em entrevista à TV Galo.

O Atlético de Emerson Leão jogou com Taffarel (Paulo Cesar Borges); Dedimar, Sandro Blum, Luis Eduardo e Dedê; Doriva, Bruno, Toninho Cerezo (Almir) e Jorginho Cantinflas (Lincoln); Valdir Bigode (Hernani) e Marques. Já o Milan, de Fabio Capello, jogou com Taibi; Costacurta, Maldini, Bogarde, André Cruz e Ziege; Ibrahim Ba (Cardone), Savicevic (Smoje) e Blomqvist (Zizi Roberts); Boban e George Weah. As informações são do site Galo Digital.

Mais empates

Dando sequência ao Grupo A, a segunda rodada foi realizada no dia 4 de agosto, em rodada dupla no Mineirão. No primeiro jogo, Corinthians e Milan jogaram para cerca de trezentos torcedores e não saíram do zero a zero. O atual campeão paulista jogou com Ronaldo Giovanelli; Fábio Augusto, Henrique, Antônio Carlos, e Silvinho, Gilmar, Edinan (Rodrigo), Fernando Diniz e Souza; Marco Aurélio (Agnaldo) e Mirandinha (Romeu). O Milan jogou com Rossi; Maldini (Smoje), Costacurta, André Cruz, Ziege e Albertini; Boban, Savicevic, Blomqvist, Ibrahim Ba (Anderson) e George Weah.

Logo depois, a dupla mineira também empatou, pelo placar de 2 a 2, diante de 6.366 pagantes. Valdir Bigode abriu o placar para o Atlético em cobrança de pênalti os 16 minutos e o experiente Tupãzinho empatou pouco antes do intervalo, ao completar de cabeça um cruzamento de Celso pela esquerda. O mesmo Celso vira o jogo aos 12 do segundo tempo, mas a joia Lincoln deixa tudo igual aos 24 minutos, em cobrança de falta magistral, que acertou o ângulo direito do goleiro Gilberto.

O Galo foi de Paulo Cesar Borges; Dedimar, Sandro Blum, Luis Eduardo e Dedê; Bruno, Doriva, Almir (Lincoln) e Jorginho Cantinflas; Valdir Bigode e Marques. O América jogou com Gilberto; Estevan, Júnior, Ricardo e Tércio; Pintado, Boiadeiro, Tupãzinho e Celso; Ribaldo e Irênio (Vanderlei).

Coelho segura o Milan e o Galo avança à final

No dia 6 de agosto, os jogos da terceira e última rodada aconteceram simultaneamente. O Independência recebeu o duelo tático entre Givanildo de Oliveira e Fábio Capello. Logo no início, Weah marca o seu terceiro gol na competição. Mas o ímpeto rossonero parou por aí, e o Coelho criou várias chances até conseguir o empate, no final da partida. Rinaldo tocou para Celso que fintou Ibrahim Ba e bateu com muita classe de pé esquerdo, fechando o placar em 1 a 1.

Segundo o blog O Canto do Coelho, 4.065 pessoas acompanharam a partida. O América jogou com Gilberto; Estevam (Evanílson), Júnior, Ricardo e Tércio (Marcos Paulo); Pintado, Boiadeiro e Irênio (Vanderlei); Tupãzinho, Celso e Rinaldo. O Milan foi a campo com Taibi; Smoje, Costacurta, Bogarde e Ziege; Albertini, Boban e Ibrahim Ba (Cardone); Blomqvist, George Weah (Roberts) e Kluivert (Anderson).

No outro jogo do grupo, o Atlético venceu o Corinthians por 4 a 2, no Mineirão, diante de 2.927 pagantes, na única partida da chave que não terminou empatada.

Enquanto Weah balançava as redes do Coelho, Gilmar Fubá abria o placar no mesmo minuto em chutaço de fora da área, aos 4 minutos. Aos 14, o baixinho Jorginho empatou para os anfitriões de cabeça. Aos 31, Souza voltou a colocar o Timão na frente. Ainda na primeira etapa, aos 40, o talismã Hernani chutou forte de esquerda da entrada da área e deixou tudo igual. No segundo tempo, o Galo decretou a vitória com gols do artilheiro Marques e mais um de Jorginho.

O Galo jogou com Paulo César; Dedimar, Sandro Blum, Luís Eduardo, Dedê, Doriva, Bruno (Cairo), Jorginho Cantinflas, e Almir (Leandro); Marques e Hernani. Já o Corinthians jogou com Ronaldo Giovanelli; Fábio Augusto, Antônio Carlos, Henrique, Rodrigo e Silvinho; Gilmar, Fernando Diniz (Edinan) e Souza; Mirandinha e Marco Aurélio (Agnaldo).

Raposa de olho na Libertadores

No outro grupo, o anfitrião Cruzeiro não estava muito preocupado com a competição amistosa. O presente que a Raposa queria dar para Belo Horizonte era o título da Libertadores da América. Os jogos da Copa Centenário aconteceram entre os dois jogos das finais contra o peruano Sporting Cristal, e o Cruzeiro levou a campo um time reserva para enfrentar Benfica, Flamengo e Olímpia.

No dia 3 de agosto, o Mineirão recebeu outra rodada dupla. No primeiro jogo, o Flamengo empatou com o Olímpia por 2 a 2. O time paraguaio abriu 2 a 0 na primeira etapa com gols de Monzón e Esteche, mas o Flamengo reage e busca o empate com Lúcio e Sávio, em um chute fulminante de canhota.

De acordo com o Almanaque do Flamengo, o time carioca jogou com Clêmer; Fábio Baiano, Junior Baiano, Fabiano e Gilberto; Bruno Quadros (Marco Aurélio), Jamir, Jorginho e Piekarski (Iranildo); Lúcio e Sávio. O rubro-negro era então treinado por Sebastião Rocha, um técnico com carreira no mundo árabe e que acabou sendo um dos muitos treinadores-tampão da história flamenguista. Não conseguimos localizar a escalação do Olímpia nesta partida.

No segundo jogo, os reservas do Cruzeiro golearam o Benfica por 4 a 1. Os Encarnados ainda abriram o placar com o brasileiro Paulo Nunes. Roberto Gaúcho empatou de pênalti e um ainda jovem Geovanni marca duas vezes para virar o placar. O atacante Fábio Junior, também ainda um garoto, fechou o placar. O destaque do jogo foi a pressão da torcida cruzeirense nos poucos mas fanáticos torcedores benfiquistas, como mostra a reportagem da TV Globo na época:

O Cruzeiro, comandado na competição por Wantuil Rodrigues, jogou com Rodrigo Posso; Ricardo, Odair, João Carlos e Gustavo; Reginaldo (Marcos Paulo), Geovanni (Ivan), Caio e Elivélton; Fabio Junior e Roberto Gaúcho (Leandro Gaviolle). Já o Benfica, do técnico Manuel José, atuou com Ovchinnikov; Calado, Gamarra, Ronaldo e Minto; El Khalej (El-Hadrioui), Bruno Caires, Taument e Erwin Sanchez; Paulo Nunes e Nuno Gomes (Leônidas). Um público de 4.891 pagantes acompanhou ambas as partidas.

Não satisfeito, dois dias depois o Benfica tomou outro ‘sapeco’ no Mineirão. O Flamengo aplicou 5 a 2 no time português. Sávio iniciou o marcador batendo pênalti, mas o boliviano Erwin Sanchez empatou em uma falha clamorosa de Clêmer. Ainda no primeiro tempo, Iranildo colocou o Flamengo de novo na dianteira. Na etapa final, Lúcio ampliou de cabeça. O brasileiro Paulo Nunes marcou um golaço de calcanhar, mas a reação benfiquista parou por aí. Rodrigo Mendes e Fábio Baiano completaram a vitória rubro-negra.

O Flamengo foi escalado com Clemer; Fabio Baiano, Fabiano, Luiz Alberto e Gilberto; Jamir, Jorginho, Evandro (Rodrigo Mendes), Iranildo; Lúcio e Sávio.

O Cruzeiro, novamente com time reserva, conquistou mais uma vitória, dessa vez pelo placar magro de 1 a 0 sobre o Olímpia. O talentoso Geovanni voltou a marcar com mais um golaço.

O ‘expressinho’ cruzeirense jogou com Rodrigo Posso; Ricardo, Odair, João Carlos e Reginaldo; Gustavo, Marco Paulo, Caio (Leandro Gaviolle) e Geovanni; Elivélton e Fábio Junior. O Olímpia, do lendário uruguaio Luis Cubilla, atuou com Tavarelli; Cáceres, Zelaya, Caniza e Jara (Felix Torres); Suarez, Paredes, Caballero (Bourdier) e Jojas; Monzón e Mendoza (Esteche). As informações são do site CruzeiroPédia. 2.786 pagantes assistiram mais esta rodada dupla.

Na rodada final, no dia 7 de agosto, novamente em rodada dupla, acompanhada por 3.088 pagantes, Benfica e Olímpia empataram sem gols, naquele tipo de partida “perdida”, em que praticamente não há informações sobre.

Em seguida, Cruzeiro e Flamengo decidiram uma vaga na decisão da competição amistosa. No rubro-negro, a novidade era Renato Gaúcho, que estava de volta ao clube. No primeiro tempo, Fábio Junior marcou o primeiro da Raposa, após passe de Elivélton. No segundo tempo, o sempre decisivo Elivélton ampliou. E ainda deu tempo de Renato Gaúcho marcar o seu. Cruzeiro 2 a 1 no placar e garantido na final

O time mineiro jogou com Rodrigo Posso; Ricardo, Odair, João Carlos e Gustavo; Reginaldo, Marcos Paulo, Geovanni e Elivélton; Fabio Junior (Feijão) e Roberto Gaúcho (Ivan). O Flamengo foi de Clemer; Fabio Baiano, Fabiano (Juan), Luiz Alberto e Leonardo; Jamir, Evandro (Iranildo), Maurinho e Lúcio; Renato Gaúcho (Rodrigo Mendes) e Sávio.

Clássico na final

Provavelmente, quando a Copa Centenário foi idealizada, o cenário perfeito já estava desenhado, com Atlético e Cruzeiro na final, e na prática foi isso mesmo que aconteceu. No dia 9 de agosto, quase 40 mil pessoas (39.095 pagantes) lotaram o Mineirão para mais um clássico.

Naturalmente, o time principal do Galo era superior ao Cruzeiro, e o alvinegro pressionou até conseguir sair na frente aos 45 do primeiro tempo, com Leandro Tavares, que ainda não havia atuado na competição.

No segundo tempo, o Cruzeiro ainda buscou o empate com o zagueiro Odair, de cabeça, aos 27 minutos. Aos 34, porém, após cruzamento de Dedimar na área, a bola sobrou ara Valdir Bigode, que se jogou na bola e a mandou para o fundo da rede, marcando o Galo como o campeão do Centenário de Belo Horizonte.

O Atlético foi campeão com Paulo Cesar; Dedimar, Sandro Blum, Luis Eduardo e Dedê; Bruno (Neguete), Doriva, Leandro Tavares e Jorginho Cantinflas (Gutemberg); Valdir Bigode (Hernani) e Marques. O Cruzeiro jogou com Rodrigo Posso; Ricardo, João Carlos, Odair e Gustavo (Tico); Reginaldo, Marcos Paulo (Donizete Amorim), Cleisson e Geovanni; Roberto Gaúcho (Da Silva) e Fábio Junior.

Alvo de CPI

Se dentro de campo a Copa Centenário de BH ficou marcada pela singularidade, fora das quatro linhas foi um grande fracasso. Segundo o jornal O Estado de São Paulo, a competição deu um prejuízo de R$ 4 milhões para a FMF, gerando uma grave crise financeira na entidade, e foi citada na CPI do Futebol, realizada em 2001. A Comissão Parlamentar de Inquérito caracterizou como “evasão de divisas” uma operação financeira que buscou sanar parte do prejuízo da federação e a cota referente à participação do Milan. O presidente da FMF na época, Elmer Guilherme Ferreira, deixou o cargo naquele mesmo ano de 2001. Anos mais tarde, sua atuação junto à entidade lhe gerou condenações na justiça. O dirigente faleceu em outubro de 2011, aos 62 anos.

Copa alternativa

Além da aposta na competição comemorativa com times de elite, o aniversário de BH também foi pretexto para a criação da Copa Centenário de Futebol Amador. O torneio ganhou prestígio e seguiu sendo disputado com o passar dos anos, atendendo diversas categorias, da garotada aos atletas máster. A copa não é realizada desde o ano de 2019, em razão da pandemia de Covid-19.